Música,
Poesia e Poder sempre conservaram relações extremamente significativas.
É sobre isto que nos fala o filósofo Friedrich Nietzsche
[1]
, em um dos textos de
A Gaia Ciência, quando levanta a instigante hipótese de que a origem
da poesia estaria diretamente ligada ao desejo de se exercer um poder –
o que de resto, acrescentaria mais tarde Michel Foucault, é também a origem
de qualquer forma de conhecimento
[2]
. Foi porque pretendia exercer um poder sobre o outro,
sobre os deuses ou sobre as forças da natureza, que o homem “fez penetrar
o ritmo no discurso, esta força que reordena todos os átomos da frase, que
compele a escolher as palavras e dá nova colocação ao pensamento”
[3]
. A poesia – e na verdade a Música que freqüentemente
se vê necessariamente vinculada a ela nos períodos mais recuados da História
Cultural – é deste modo a mais encantadora das formas de dominação inventadas
pelo homem.
Quer
se concorde ou não com a hipótese de Nietzsche sobre a origem da poesia,
o fato é que Poesia e Música têm sido no decurso da história freqüentemente
apropriadas como instrumento de poder através do qual se pode subjugar ou
resistir, ao mesmo tempo em que, em outros casos, a Música e a Poesia se
apresentam como arena livre onde forças diversas se digladiam, e na qual
são desencadeados tanto conflitos individuais internos ao homem como conflitos
sociais que o circundam. A Música e a Poesia acolhem indistintamente os
poderosos e os que a estes se opõem: a um poeta – e mais ainda quando este
pode contar com a sedução dos sons musicais – é por vezes dada a licença
para dizer, sob o manto protetor do ritmo, das sonoridades envolventes e
das imagens poéticas, o que jamais poderia ser dito em prosa corrente. Em
outros casos, mesmo quando um músico termina seus dias na masmorra, suas
canções conseguem circular livremente.
Com
a ousadia de penetrar no misterioso reino das metáforas musicais e poéticas,
poderíamos acrescentar que o ‘fio da voz’ é ainda mais cortante que o ‘fio
da espada’. Enquanto esta corta a matéria, a poesia envolvida pela música
corta o simbólico, invade o imaginário e o submete ao poder daqueles que
detém o verso. E a partir daí – porque não ir mais longe? – estabelece também
o seu senhorio sobre a matéria.
A
consciência de que música é poder pode ser por vezes surpreendida nos próprios
textos poéticos, ou ainda nos que se propuseram, em todos os tempos, a tentar
compreendê-los. Em 1290, o intelectual citadino Jean de Grouchy descrevia
no seu De Musica os efeitos
buscados por certas ‘canções de gesta’:
“Este
canto se destina a ser executado em presença de velhos, de obreiros, e do
vulgo, quando eles repousam de seu trabalho cotidiano, a fim de que a audição
das infelicidades experimentadas pelos outros os ajude a suportar as suas
e de que cada um deles retome em seguida, mais alerta, sua tarefa profissional.
Por isso, esse gênero de canto é útil à conservação do Estado”
[4]
.
Nada
mais explícito do que este texto medieval, denunciador da busca de poder
que se infiltra na criação musical e poética, da consciência de um público
que se pretende submeter pelo ritmo, da medida que se tinha do papel da
música como um instrumento de controle social. Particularmente durante todo
o período medieval, os exemplos se multiplicam. Não era a toa que, no século
X, reis e chefes guerreiros islandeses mantinham em suas cortes círculos
de músicos-poetas profissionais, os escaldos,
para o seu próprio louvor e enaltecimento, e na verdade para a difusão de
suas gestas em um círculo social mais amplo. Tampouco é de se estranhar
que as invasões nórdicas contra o mundo românico tenham contado também com
o seu acompanhamento poético-musical, os eddas,
ou que, em estilo completamente diverso, a Igreja tenha buscado exercer
o domínio sobre os seus devotos com a serenidade disciplinadora dos cantos gregorianos.
Mas
foi entre os séculos XII e XIV que o Ocidente Europeu viu florescer um de
seus mais ricos movimentos poético-musicais. Do Mediterrâneo ao Mar do Norte,
a “gaia ciência” dos trovadores foi espaço espontâneo de expressão de uma
sociedade que se via apertada pelos laços fortes do feudalismo, da realeza
e da religião oficial. Nela encontrou voz não apenas a tradicional figura
do trovador nobre, este misto de menestrel cavaleiro e espírito livre, como
também toda uma dimensão popular da sociedade que, às vezes estilizada por
esses mesmos trovadores nobres,
era outras vezes trazida ao ambiente trovadoresco das cortes régias e senhoriais
pelos jograis, trovadores populares a quem também era conferido o seu quinhão
de licença poética. Por outro lado, no ambiente trovadoresco medieval também
encontraram voz não apenas o cristianismo oficial, como também o paganismo
e a heresia cátara – a seu tempo reprimidos – e a poesia musical insolente
e anticlerical dos goliardos, clérigos errantes que enalteciam o vinho,
o jogo e o amor, e que despejavam virulentas sátiras contra as autoridades
eclesiásticas.
O
trovadorismo de corte foi um dos subconjuntos deste movimento poético-musical
mais amplo – que incluía outros ambientes que iam desde a taberna até a
praça pública. Algumas cortes régias e senhoriais se conservaram como redutos
de uma poesia francamente aristocrática; outras se converteram em verdadeiros
espaços de circularidade cultural e social. Tal foi o caso das cortes régias
de Portugal e de Castela – estes dois pólos principais do trovadorismo galego-português
dos séculos XIII e XIV
[5]
.
Aqui,
o ambiente trovadoresco se apresentou como uma grande arena aberta à expressão
da pluralidade sócio-cultural, bem como das tensões sociais e individuais.
Mesmo o jogral popular da mais humilde condição social era livre para rivalizar
e afrontar musical e poeticamente os trovadores-fidalgos
[6]
. A música, como nunca, era empunhada por pequenos e grandes
como se fosse uma espada; os combates se davam no ambiente trovadoresco
do Paço e ali mesmo se resolviam, sob o olhar sábio de um rei que se colocava
como protetor e promotor da cultura, como mediador da diversidade social,
como monarca multi-representativo e capaz de penetrar em todas as ordens
e circuitos culturais – do sagrado ao profano, do popular ao aristocrático,
do rural ao urbano.
A
pluralidade que atravessava a música trovadoresca galego-portuguesa adequava-se,
portanto, às estratégias políticas e culturais inerentes aos precoces projetos
de centralização monárquica da
dinastia de Borgonha em Portugal, e de Afonso X em Castela – projetos centralizadores
que tinham de enfrentar um projeto oposto de autonomia senhorial,
que acabava por ter também seu espaço no
disputatio poético do Paço.
Era
uma pluralidade, de certo modo, relativa. Sobre a extensa distribuição do
poder em redes que se expressava na voz concedida ao trovador-fidalgo a
par dos representantes reais, mas também ao jogral assoldadado, ao segrel
independente, ao cavaleiro vilão abastado, havia limites que não podiam
ser transgredidos. Tais limites eram determinados na confluência dos interesses
palacianos com os interesses aristocráticos, como um “campo de força social”
dentro do qual os representantes dos demais grupos sociais podiam circular
livremente.
Em
todo o caso, no cancioneiro satírico ibérico, sobretudo nas tenções e nas cantigas de escárnio e de mal
dizer, a música e a poesia aproximam-se daquele estado primordial que
a fez filha de um desejo de afirmação do poder. Pretende-se convencer pelo
ritmo, aprisionar a platéia em um "irresistível desejo de ceder, de
fazer eco, não apenas os pés seguem a cadência do compasso, a alma também..."
[7]
, e então já estão todos zombando em uníssono do alvo
do escárnio, seja ele um humilde peão ou um fidalgo abastado: ei-lo enfim
derrubado por uma espada feita só de ritmos e sonoridades, a cujos golpes
não pode resistir nem a mais dura das armaduras medievais.
Ou
então o escárnio contribui para “aliviar a alma de qualquer coisa excessiva,
seja ela mania, pena, sede de vingança”. Tematicamente, ele não conhece
limites: pode alvejar o rei, o papa, ou até mesmo Deus. “Eleva-se ao máximo
a extravagância do seu delírio e de sua paixão, o furioso torna-se frenético,
o sedento de vingança bêbado de sua necessidade”
[8]
, e então, na concretude da vida diária tudo se torna
suave; porque as tensões se resolveram no plano lírico, podem continuar
implícitas no cotidiano sem afetar o equilíbrio de confrontos tão cuidadosamente
cultivado pela sabedoria do rei.
Por
fim, teríamos as tenções, que
permitem que um humilde jogral – que na vida corrente teria que se curvar
ao nobre – agora o enfrente em pé de igualdade, combatendo-o com as únicas
armas que não são negadas a ninguém. Um entoa musicalmente um verso: atira-o,
pedra, contra o ponto fraco do adversário; este se defende, contra-ataca
com um novo verso que expõe publicamente as feridas do inimigo; a platéia
assiste a esta sucessão de golpes e contragolpes, a esse “jogo partido”
que por vezes termina com um vencedor e um vencido. Pode se dar então que
o mais hábil no manejo dos ritmos, sonoridades e rimas seja este que no
imaginário esquema da trifuncionalidade medieval ocupa a posição mais subalterna,
o cantinho mais insignificante da base do triângulo ... o jogral, que sem
o verso não era coisa alguma, com o verso tornava-se quase um deus
[9]
.
*
Centro de gravidade cultural, o Paço irá certamente selecionar a
música que circula em seu interior, embora sem reprimir a que circula fora
do âmbito palaciano. Falaremos aqui de uma filtragem envolvida neste processo
cultural, e este é apenas o primeiro passo para que se faça a inevitável
pergunta: "e quem filtra?". A resposta é indissociável da tentativa
de se entender quais são as forças e relações de poder que atuam hegemonicamente
no ambiente cultural palaciano dos reinos ocidentais-ibéricos do século
XIII (Portugal e Castela).
A primeira dessas forças é obviamente o rei – entendido aqui não
apenas como a figura individual do monarca, mas também o seu núcleo de privados,
funcionários e, principalmente, a idéia de um projeto centralizador. A este
projeto se associam alguns burgueses e nobres, às vezes de forma mais ou
menos coerente e podendo até transitar entre aquele projeto e o seu rival,
que pretende uma autonomia senhorial.
A segunda força dominante, ou melhor, um segundo conjunto de forças,
é a nobreza. Com relação ao embate centralizador, parte da nobreza pode
se associar a essa outra força que é o projeto de autonomia senhorial, mas
parte dela – sobretudo a que precisa do rei para a sua ascensão social –
pode participar do quadro favorável aos objetivos centralizadores
[10]
. A nobreza, decomposta em nuanças internas que correspondem
às combinações possíveis entre suas subcategorias (ricos-homens, infanções, escudeiros) e suas circunstâncias
econômicas, status linhagísticos
e posicionamentos políticos – podia destarte produzir a pressão de um bloco
no que se refere a certos interesses comuns, como a defesa de uma identidade
perante outros grupos sociais; em certos momentos, diga-se de passagem,
o rei deixava claro que em última instância também ele era um nobre, aliando-se
a certas posições comuns como o desprezo a segmentos sociais inferiores.
Os diversos segmentos do povo também tinham uma participação consentida
(ou conquistada?) no ambiente trovadoresco da corte régia. São eles que
trazem, de maneira mais decisiva, aquela diversidade externa para o ambiente
da corte. Essa pluralidade social tinha seus porta-vozes nos
jograis e segréis de diversas categorias, e foi também assimilada pela
poesia do rei e dos nobres.
Eis aí, de forma bastante simplificada, o complexo quadro de forças que opunha uma "filtragem"
ao material trovadoresco mais amplo, e que selecionava o que iria circular
ou seria produzido no ambiente trovadoresco régio. Do ponto de vista dos
representantes humanos desta complexa rede de forças sociais, o meio trovadoresco
ocidental-ibérico desdobra-se em uma diversidade de poetas-cantores dos
quais 153 foram registrados na documentação lírica. Autores das 1679 cantigas
anotadas nos cancioneiros, eles pertencem a todas as categorias sociais
e participam de formas diversas e com freqüências diferenciadas dos espetáculos
palacianos. Movimentam, por assim dizer, o intrincado jogo de forças sociais
das quais se tornam representantes.
Quanto ao cotidiano
sobre o qual se desenvolvia a atividade trovadoresca cortesã, não podemos
levantar senão algumas suposições. A única documentação que nos acessa os
saraus palacianos, os momentos de reuniões trovadorescas e de espetáculos
líricos, é o conjunto de iluminuras que acompanham alguns dos cancioneiros
escritos. Em cores muito vivas, tais fontes iconográficas testemunham a
prática de saraus palacianos, fornecendo dados visuais sobre os atores,
o espetáculo e o público, notando-se naturalmente os devidos limites, já
que as iconografias incluídas nos cancioneiros são representações e não
registros documentais.
Além disto, podemos deduzir que os momentos trovadorescos se davam
com alguma periodicidade pelo número significativo de cantigas registradas
nas páginas do cancioneiro. Ou ainda, no caso das cantigas satíricas, pelas
cadeias de relações estabelecidas entre umas composições e outras. Era comum
um trovador referir-se a uma cantiga de outro, provavelmente apresentada
em oportunidade anterior, estabelecendo-se uma verdadeira constelação de
cantigas interrelacionadas
[11]
. Ora. Tal articulação pressupõe uma regularidade de momentos
trovadorescos. Possivelmente havia saraus periódicos, e também festas trovadorescas
especiais, todos momentos exemplares para os poetas-cantores exibirem seus
talentos e concorrerem por sinais de prestígio social.
Também se deve notar que a produção trovadoresca
apresentava duas faces: a das “cortes de amor” e a das “cortes satíricas”.
As primeiras eram regradas por um ambiente mais polido, bem ao estilo provençal,
concomitantemente freqüentado pelas altas damas a quem os trovadores dedicavam
as suas cantigas de amor; também ali eram apresentadas tenções de temática amatória e cantigas
de amigo de natureza diversa. Mas, sem a presença das mulheres de sociedade,
deviam ser realizados saraus exclusivamente dedicados a uma maior liberalidade,
com cantigas eróticas e satíricas, estabelecendo-se ademais uma verdadeira
disputatio lírica entre os vários poetas.
A esta configuração específica do paço trovadoresco, chamaremos de “arena
dos trovadores” no seu sentido mais estrito. Sendo reuniões menos convencionais
de trovadores, isto é, mais liberadas de censuras e regras de cortesia,
deviam contar ainda com a participação de soldadeiras e jogralesas, amplamente
mencionadas no cancioneiro erótico e evidenciando uma relação íntima com
os trovadores de todas as categorias sociais, inclusive o rei. As “cortes
satíricas” eram momentos exemplares para a expressão da pluralidade socio-cultural
ibérica. Mais ainda que nas “cortes de amor”, por meio delas a sociedade
exterior invadia o Paço — agora não apenas pelos poetas-cantores não-aristocratas
que assimilavam a cultura cortesã, como também por suas múltiplas tradições
populares, práticas concretas e imaginários, que se impunham à corte como
um complexo cultural alternativo.
Neste
momento, podemos passar a examinar as tensões sociais presentes nas sociedades
ibéricas do século XIII que se explicitam através de sua poesia e de sua
música. Neste artigo, nosso intuito será apenas o de exemplificar algumas
destas tensões através da análise de algumas cantigas escolhidas. Interessa-nos,
particularmente, chegar até a participação do jogral – mostrar como este
que era visto pela nobreza como oriundo de um extrato social inferior era
aceito, não obstante, no palco trovadoresco.
Tal
como se disse, eram comuns, nestas “arenas trovadorescas” ibéricas, as cantigas
de escárnio e de mal dizer que podiam ter como alvo até mesmo o rei, o que
demonstra a relativa liberalidade dos paços trovadorescos. Este é o caso
da cantiga abaixo, movida pelo fidalgo Gil Peres Conde contra o rei Afonso
X de Castela, que também era, aliás, um dos mais hábeis trovadores
[12]
:
“Os
vossos meus maravedis, senhor,
que
eu non ôuvi, que servi melhor
ou
tan ben come outr'a que os dan,
ei-os
d'aver enquant'eu vivo for,
ou
a mia mort', ou quando mi os daran?
A
vossa mia soldada, senhor Rei,
que
eu servi e serv'e servirei,
com'outro
quen quer a que dan ben,
ei-a
d'aver enquant' a viver ei,
ou
a mia mort', ou que mi faran en?
Os
vossos meus dinheiros, senhor, non
pud'eu
aver, pero servidos son,
Come
outros, que os an de servir,
ei-os
d'aver mentr'eu viver, ou pon-
mi-os
a mia mort' o a que os vou pedir?
Ca
passou temp' e trastempados son,
ouve
an'e dia e quero-m' en partir.”
(Gil Pérez Conde, CBN 1523)
A cantiga
acima é uma das mais engenhosas do cancioneiro escarninho. O fidalgo português
Gil Peres Conde, que servira o rei de Castela na guerra da Andaluzia, queixa-se
das dificuldades em obter as soldadas correspondentes aos serviços prestados.
Em outras palavras, acusa o rei de "mau pagador" – o que neste
caso significa acusá-lo de mau cumpridor das obrigações geradas pelos vínculos
de vassalidade.
Os artifícios
poéticos encontrados pelo nobre são engenhosos e bem humorados. Joga com
o duplo uso de pronomes possessivos, "vossos" e "meus",
referindo-se aos maravedis que
estavam de posse do rei mas que por direito deveriam ser seus. "Os
vossos meus maravedis", "A
vossa mia soldada", "Os vossos meus dinheiros" – o trovador
pergunta se os receberá durante a vida ou somente à hora da morte.
O "duplo
possessivo" aqui empregado, com originalidade absoluta, é um exemplo
notável daquela capacidade de trazer o confronto para dentro de uma única
expressão. Tornada ambígua, e provavelmente acompanhada de uma entonação
irônica no plano da oralidade, a palavra poética expressa aqui o entrechoque
de dois interesses. O do monarca, que naqueles tempos perturbados e de dificuldades
econômicas acabava por vezes atrasando as soldadas,
e o do vassalo, exigindo o pagamento imediato, já veremos que por considerá-lo
uma obrigação suserana.
Brigam
os dois possessivos, "meus" e "vossos", disputando o
espaço com que se colam ao substantivo que para o fidalgo representa um
"direito", mas para o monarca se insinua como uma "obrigação".
O entrechoque poético e inusitado entre os dois possessivos é desta forma
o entrechoque entre um direito e uma obrigação, entre o vassalo e o suserano,
entre uma necessidade e outra. Quantas disputas secretas não se insinuam
neste torneio imaginário que se celebra no interior de uma única palavra
poética!
Além de
uma queixa contra a dívida não paga, deve-se buscar nesta cantiga o texto
sob o texto: ela invoca indiretamente o próprio conjunto de instituições
feudo-vassálicas, e coloca o monarca na posição de um senhor que se beneficiou
dos serviços do vassalo mas recusa-se a cumprir suas obrigações de suserano.
Competem, desta forma, o modelo do "bom vassalo" e o contramodelo
do "mau suserano".
Vejamos
agora que por trás destes combates se dá um outro. É o próprio "embate
centralizador" que produz sua centelha a partir do entrechoque destas
muitas espadas. O "rei centralizador" é muitas vezes um "mau
suserano". Nos tempos mais difíceis a sua necessidade o leva a unilateralizar
uma obrigação que, no ponto de vista estritamente "feudal", deveria
carregar a inseparável sombra da reciprocidade. Vista pelo circuito dos
ideais vassálico-cavaleirescos, a expressão "senhor" repetida
em cada uma das três estrofes (por exemplo, "senhor rei") assume
desta forma um sentido a mais além do vocativo respeitoso, remetendo às
obrigações de senhor (suserano) que o rei teria descumprido.
Por tudo se vê que, dentro de um contexto em que vem se dando no
plano político um embate entre o projeto régio centralizador e uma “contratendência
feudalizante” de parte da nobreza do reino, a cantiga aqui discutida compõe
com outras cantigas análogas do mesmo trovador uma defesa dos direitos senhoriais.
Trata-se de um exemplo particularmente interessante de como as tensões de
ordem política podiam se projetar nos ambientes trovadorescos.
Da mesma forma que ocorria para
o caso das cantigas de escárnio, os conflitos de toda ordem também se projetavam
em outro conhecido gênero poético do cancioneiro satírico da medievalidade
ibérica. Veremos a seguir que as tenções punham freqüentemente em confronto poetas-cantores pertencentes
a distintas categorias sociais. Este gênero era já conhecido nas cortes
provençais e na minnesang. A forma
era constituída de uma alternância de estrofes, onde um trovador respondia
ao outro à maneira de um desafio. O dado fundamental é que, nas cortes feudais
européias, mesmo que estes disputatios
líricos envolvessem trovadores aristocratas e menestréis de categoria social
inferior, o tema central da tensó
jamais envolvia questão de fundo social. Discutia-se em torno da “amatória”
(questões relativas ao amor cortês), ou então sobre “estilística”.
Ao contrário,
na “tenção” ibérica”, era muito
comum dois tipos sociais antagônicos, o jogral assoldadado e o trovador
fidalgo, duelarem liricamente com conotações sociais
[13]
:
“—
Juião, quero tigo fazer,
se tu quiseres, ua entençon:
e querrei-te, na primeira razon,
ua punhada mui grande poer
eno rostro, e chamar-te rapaz
mui mao; e creo que assi faz
boa entençon quena quer fazer.
— Meen Rodriguez, mui sen meu prazer
a farei vosc', assi Deus me perdon:
ca vos averei de chamar cochon,
pois que eu a punhada receber;
des i trobar-vos-ei mui mal assaz,
e atal entençon, se a vós praz,
a farei vosco mui sen meu prazer.
— Juião, pois tigo começar
fui, direi-t' ora o que farei:
ua punhada grande te darei,
des i querrei-te muitos couces dar
na garganta, por te ferir peor,
que nunca vilão aja sabor
doutra tençon comego começar.
—
Meen Rodriguez, querrei-m' en parar,
se Deus me valha, como vos direi:
coteife nojoso vos chamarei,
pois que eu a punhada recadar;
des i direi, pois so os couces for:
'Le[i]xade-m' ora, por Nostro Senhor',
ca assi se sol meu padr' a en parar.
— Juião, pois que t' eu [for] filhar
pelos cabelos e que t' arrastrar,
que dos couces te pès eu creerei.
—
Meen Rodríguez, se m' eu estropiar,
ou se me fano, ou se m' entortar,
ai, trobador, já vos non travarei”
(Meen Rodríguez Tenoiro e Juião Bolseiro;
CBN 403)
A estrutura
de tenção é típica: através dela, os dois
trovadores se ocupam de depreciar um ao outro em estrofes alternadas. Neste
sentido, ao invés da tenção girar
em torno de uma questão genérica, o que se vê é uma sucessão de ataques
pessoais que oculta um verdadeiro conflito de categorias sociais.
Mem Rodrigues
Tenório pertencia a uma das mais ilustres famílias galegas e à melhor nobreza
da Península. Quanto a Juião Bolseiro, era um jogral que também atuava com
sua margem de atrevimento, embora muito menos que Lourenço, mas que aqui
aparece curiosamente comedido diante das ameaças de Tenório.
Estamos
aqui diante de uma tenção proposta
em termos de rara agressividade. Quase que toma a forma lírica de uma "briga
de rua", não fosse que, à total agressividade de Tenório, Juião Bolseiro
replica com certo comedimento. Enquanto o fidalgo principia por dizer que
sua primeira razão é um murro no rosto (v. 4/ 5), Juião no máximo o responde
com alguns insultos ("cochon",
por exemplo, que é uma expressão pejorativa normalmente dirigida por aristocratas
a vilãos). Talvez que, sem querer partir para o que poderia descambar para
um confronto físico, ou então extrapolar a tensão trovadoresca apresentada
liricamente, o jogral tenta responder com mais dignidade e astúcia poética.
Apropria-se então das próprias palavras injuriosas que os nobres costumavam
dirigir aos vilãos e procura voltá-las contra o fidalgo agressor, talvez
a insinuar algo sobre quem se comporta como um verdadeiro "cochão"
(v. 10), ou ainda um "coteife
nojoso" (v. 24).
Tenório, por sua vez, continua
ao longo de todas as estrofes a desfechar suas ameaças físicas, como por
exemplo na terceira estrofe, onde afirma que "irá lhe dar muitos coices
na garganta, para feri-lo tanto que desde então nenhum vilão mais se atreverá
a entençoar com ele" (v. 18/21). É a
demarcação social levada a seu extremo, com rara agressividade em uma tenção trovadoresca neste meio em que tudo
parece se resolver liricamente.
Significativo nos parece o contraste
entre a agressividade do nobre e o comedimento do jogral, pois nos mostra
que os limites de um não são iguais aos limites do outro. Em todo o caso,
o exemplo acima fica apenas como um registro extremo desta oposição entre
dois representantes de segmentos sociais que se antagonizam através da sátira
trovadoresca. Oposição que, na maior parte das vezes se concentra na disputa
estritamente lírica, na desmoralização pelo riso, no rebaixamento pela palavra.
O “combate corpo a corpo” assume em quase todos estes casos a forma de um
“combate verso a verso”, e se volta fundamentalmente para o campo da “violência
simbólica”.
Embora a tenção acima discutida
tenha trazido à tona o limite entre dois grupos sociais bem definidos, por
outro lado eram igualmente comuns as
tenções nas quais rivalizavam sem maiores
entraves um poeta-cantor fidalgo e um jogral de menor categoria, mostrando
que por vezes na “arena trovadoresca” mostravam-se como que suspensas as
regras que fora regiam as relações sociais. Assim principia uma tenção (CV 1010) entre o jogral Lourenço,
de nível social equivalente ao “peão”, e o fidalgo João Peres de Aboin
[14]
:
“— Lourenço, soias tu guarecer
como podias, per teu citolon,
ou
ben ou mal, non ti digu' eu de non,
e vejo-te de trobar trameter;
e quero-t' eu desto desenganar:
ben tanto sabes tu que é trobar
ben quanto sab' o asno de leer”
À insinuação
de que "sabe tanto de trovar quanto um asno de ler", Lourenço
replica assumindo a posição de um "bellator
lírico"
[15]
. Lembra a seu contendor que já venceu em tenções
como aquela vários outros trovadores-fidalgos, que partiram da mesma insinuação.
Agora, pretende derrubar o famoso mordomo de Dom Afonso III:
“– Joan d' Avoin, já me cometer
veeron
muitos por esta razon
que
mi dizian, se Deus mi perdon,
que non sabia n trobar entender;
e veeron poren comigu' entençar,
e figi-os eu vençudos ficar,
e
cuido-vos deste preito vencer”
A tenção assume aqui toda a sua forma de
duelo, de combate lírico onde um trovador assume-se como oponente do outro.
O verso seguinte é tipicamente demarcatório. Aboin reafirma seu propósito
de "desenganar" ao jogral Lourenço quanto a seu propósito de seguir
sendo trovador:
“– Lourenço, serias mui sabedor,
se me vencesses de trobar nen d'
al,
ca ben sei eu quen troba ben ou mal,
que non sabe mais nen um trobador;
e por aquesto te desenganei;
e vês, Lourenço, onde cho direi:
quita-te
sempre do que teu non for.”
Demarcação
por uma dupla via. Por um lado, enaltece a si mesmo e à sua condição de
trovador. Só ele, como trovador (isto é, trovador-fidalgo) seria ali capaz
de prejulgar quem trova bem ou quem trova mal. E mais, de outro lado a interdição
explícita: o espaço composicional-trovadoresco é naturalmente estranho a
um jogral de condição inferior ("quita-te sempre do que teu non for").
Depois do que, Lourenço encerra sua participação afirmando que, de forma
nenhuma, abandonará o trovar. Primeiro porque tem plena consciência de seus
méritos. Depois, porque encontra na sua atividade uma grande fonte de prazer
e satisfação:
“– Joan d' Avoin, por Nostro Senhor,
por que leixarei eu trobar atal
que mui ben faç' e que muito mi val?
Des i ar gradece-mi o mia senhor,
por que o faç'; e, pois eu tod' est'
ei,
o trobar nunca [o] leixarei,
poi-lo
ben faç' e ei [i] gran sabor”
“Tirar do trovar um grande sabor”
– é um derradeiro imiscuir-se na esfera de atitudes da nobreza para com
a trova. O jogral declara que, da mesma forma que muitos fidalgos trovam
por um prazer do espírito, o trovar é para ele muito mais do que uma profissão.
Rejeição, portanto, daquela habitual demarcação dos trovadores-fidalgos
segundo a qual a poesia devia ser para qualquer jogral apenas uma profissão,
um meio de subsistência, se possível na função de mero acompanhante dos
trovadores nobres. O ambiente trovadoresco, enfim, mostra-se aqui constituir
a mesma arena que, rigorosamente, dava-se no interior da própria palavra
“trovador”.
FONTES
Cancioneiro da Ajuda. ed. Carolina Michaëlis
de Vasconcelos. Halle: 1904. 2 v.
Cancioneiro da Biblioteca Nacional (org.)
Elza Paxeco Machado e José Pedro Machado. Lisboa: Ocidente, 1949-1964.
Cancioneiro Portuguez da Vaticana. Edição
de Teófilo Braga. Lisboa: 1878.
Carmina Burana. São Paulo: Ars Poética,
1984.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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